Por todo lado, Minas Gerais tem estradas desmanteladas ou à espera de reparação



Em São José do Goiabal, na região do Rio Doce, Gerimal da Silva vê a casa se equilibrar entre um barranco que se formou onde era o quintal, na parte de trás, e, na frente, uma cratera aberta na MG–320. “É esperar eles arrumarem, fazer alguma coisa, porque, para onde ir, a gente não tem também”, afirma. Na zona rural de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, João Aparecido Pego Vieira se cansou de esperar. Quando quer mandar para a cidade o leite produzido na fazenda às margens da MG–211, ele mesmo pega a enxada para abrir caminho na estrada de chão.


Na maior malha rodoviária do país, o retrato é preocupante, e as condições são piores do que na média nacional. Antes das chuvas avassaladoras que desabaram sobre Minas no começo deste ano, 69,9% das rodovias que cortam o Estado já estavam em condições regulares, ruins ou péssimas, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2021, que verificou cerca de 15,2 mil quilômetros. No Brasil, esse índice é de 61,8%.

Alto custo

O custo desse impacto para 2022, incluindo reparações dos danos das chuvas, ainda nem foi calculado. Entretanto, já é possível afirmar, com base na Lei Orçamentária Anual (LOA 2022), que nem todo o dinheiro previsto para as estradas federais do Brasil inteiro seria suficiente para consertar sequer os reparos emergenciais em Minas. Essas melhorias custariam, segundo estimativas da Confederação Nacional do Transporte (CNT), R$ 11,6 bilhões. Já o valor liberado para o país todo neste ano é de R$ 8,58 bilhões. Ou seja, num momento em que mais se precisaria de recursos, este é o menor montante destinado às rodovias federais dos últimos 20 anos.

Baixo investimento

O diretor executivo da CNT, Bruno Batista, afirma que a precariedade das rodovias brasileiras não é culpa das chuvas. “Do jeito que as coisas são colocadas ao público, fica parecendo que o problema é climático. Mas obra de engenharia é projetada para suportar chuva. Então, na verdade, isso é apenas uma boa desculpa para justificar dificuldades de gestão”, diz.

Segundo Batista, a não ser em situações excepcionais, como erosão e rompimento de barreiras, é irresponsabilidade culpar as chuvas quando as causas das más condições das estradas têm mais relação com a falta de investimento. “Estamos no menor nível de investimento dos últimos 20 anos. Seria muito mais fácil investir em prevenção, mesmo porque, quando a conta inclui vidas, não tem nada que pague. Não foram as chuvas que trouxeram o problema, e, sem investimento (em manutenção), agora os gastos terão que ser ainda maiores”, analisa Batista.

Até mesmo o Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), responsável pelas rodovias estaduais, admite que a situação atual é caótica. “As rodovias se encontram em situação precária, temos muitos problemas, buracos, erosões de bordo, rompimento de bueiros”, assume Robson Santana, diretor geral do DER. Segundo ele, a precariedade atual é fruto de 12 anos sem investimento de governos no órgão que cuida das estradas. “Juntamente com o maior período chuvoso da história, em que mais de 400 municípios foram atingidos e decretaram estado de calamidade”, completa.

O que diz o Estado

A administração estadual se escora na indenização paga pela Vale, devido ao rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão. Ocorrida em 2019, no município de Brumadinho, a tragédia resultou em reparação financeira total da ordem de R$ 37,6 bilhões. Desse valor, R$ 700 milhões estão sendo destinados para recuperação de rodovias, segundo Santana. Um levantamento feito pelo órgão demonstrou que Minas Gerais possui 4.000 km de estradas em estado ruim ou péssimo. Desses, 800 km estão passando atualmente por obras, segundo o DER.

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